O papel do professor nos tempos modernos

14/11/2007 17:25h - Vivemos em uma época onde são grandes os problemas que envolvem a profissão de professor no Brasil. E nunca ele teve que se aprimorar tanto como hoje, pois é preciso estar em dia com o uso de tecnologia, muitas vezes bancada pelo próprio educador.

Segundo Celso Napolitano, presidente da Federação dos Professores do Estado de São Paulo e vice-presidente do Sinpro (Sindicato dos Professores de São Paulo), apesar da adequação dos educadores aos tempos modernos, é preciso que não se perca de vista sua missão na sociedade. É preciso dar estímulo, resgatar o papel dos professores, o que poderá incentivar a criação de uma nova geração e melhorará a qualidade de ensino.

@prender: Hoje em dia as mudanças são muitas. No caso dos alunos, eles estão mais ligados à Internet, às novas tecnologias, e acostumados a receber informações rapidamente. Como o professor deve se adequar a isso?

Celso Napolitano: Essa adequação já está acontecendo com esforço do próprio professor. Uma pesquisa encomendada pelo Sinpro-SP [Sindicato dos Professores] indicou que mais de 95% dos professores de ensino superior têm computadores, a maioria com acesso à Internet por banda larga. E isso se deve a motivos essencialmente profissionais, ou seja, ele usa a tecnologia como ferramenta de trabalho.

@prender: O EAD está tomando forma cada vez maior nas IES. Como o professor entra nesse processo?

Celso Napolitano: A acelerada expansão do EAD exige regulamentação, inclusive do trabalho docente. Caso contrário, poderá ser usada apenas para ampliar as margens de lucro das instituições privadas de ensino, sem a necessária preocupação com a qualidade do ensino e das condições de trabalho docente.

@prender: Acha que os professores devem fazer algum tipo de aperfeiçoamento para o EAD?

Celso Napolitano: Em primeiro lugar, não existe apenas um modelo de ensino a distância. E para cada um dos formatos, sem dúvida nenhuma será necessária uma determinada capacitação técnica no manuseio das ferramentas tecnológicas. Entretanto, o importante continuará sendo o nível de conhecimento específico na sua área de atuação e essa é uma condição inerente não só para educação a distância, mas ao ensino presencial.

@prender: Como você enxerga o perfil do docente no futuro próximo? Quais as habilidades que ele deve ter e desenvolver?

Celso Napolitano: Como ocorre em qualquer profissão, o avanço tecnológico transforma o exercício profissional, na medida em que o trabalhador passa a operar com novos instrumentos. Mas são apenas técnicas, ferramentas de trabalho. O exercício docente transcende essa questão, pois há um aspecto que não será alterado: o papel do professor e sua inexorável ligação com o conhecimento acumulado ao longo de séculos. Nesse sentido, vale lembrar Hanna Arendt [cientista política alemã e defensora da educação], que mostrou que o ofício de professor consiste em "um enorme respeito pelo passado", ou seja, ao legado que a humanidade produziu. Ele é a ponte que faz os alunos voltarem-se para o passado para, então, poderem construir o futuro.

@prender: Como você acha que deve ser feito o aperfeiçoamento dos docentes no ensino superior?

Celso Napolitano: O professor trabalha com o conhecimento humano e o estudo contínuo é mais do que um aperfeiçoamento, é parte inerente do exercício docente. Isso está diretamente relacionado às condições de trabalho. No Brasil, o professor do ensino privado é contratado, principalmente, por hora-aula: só recebe quando está dentro de uma sala de aula. Ele precisa ter garantido tempo para a produção intelectual, acadêmica e didática. É um paradoxo, mas instituições de ensino superior são empresas que não investem na capacitação de seus professores. São os docentes que investem na sua titulação. As IES rejeitam, ainda, a idéia de pagar pelo tempo gasto na produção de conhecimento. Essa é uma reivindicação antiga.

@prender: Qual o balanço que você faz da Comissão de Aprimoramento das Relações de Trabalho em São Paulo?

Celso Napolitano: A Comissão de Aprimoramento das Relações de Trabalho surgiu na campanha salarial de 2007 e está prevista na convenção coletiva assinada com o Semesp [Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior no Estado de São Paulo]. A idéia foi criar uma instância de debates onde seriam discutidos assuntos espinhosos, de difícil solução, relacionados às relações de trabalho dos professores nas instituições privadas de ensino. Nas negociações de data-base, a pauta é muito extensa. Além do índice de reajuste salarial, mais de 50 cláusulas da convenção coletiva precisam ser anualmente rediscutidas. São, por isso, negociações naturalmente tensionadas, que deixam pouco espaço para questões muito complexas. A Comissão de Aprimoramento cria um ambiente mais propício ao debate. Em primeiro lugar, porque permite uma discussão de longo prazo, sem a premência da data base. Em segundo lugar, porque não tem caráter deliberativo. Todas as sugestões surgidas na Comissão de Aprimoramento serão levadas à Comissão de Tratativas Salariais, que negociará a sua inclusão na convenção coletiva. O resultado das negociações deve ser ainda submetido às respectivas assembléias dos professores e dos patrões. Os temas pautados pela Fepesp [Federação dos Professores do Estado de São Paulo] são: regulamentação do ensino a distância, plano de carreira, atividade docente e contratos de trabalho em cursos modulares.

@prender: Como você vê o problema da falta de professores? No ensino superior como está a situação?

Pesquisas recentes indicam que muitos alunos de licenciatura optam por seguir outro caminho profissional que não a docência, mas aparentemente esse é um processo ligado à educação básica, mais acentuadamente em algumas áreas, como Física e Química. A falta de estímulo deve-se à conjugação explosiva de baixos salários, más condições de trabalho e uma crescente campanha de desqualificação do professor e da instituição escolar. No Brasil, parece que todo mundo é um pouco técnico de futebol e educador. A educação é tema para todos. Isso faz com que muitos dos comentários sejam pautados pelo senso comum, sem fundamentação teórica, que freqüentemente resvala para a grosseria e a desvalorização do professor. Em 2006, o Sieeesp (Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino Superior de São Paulo) promoveu uma feira de educação, cujo título era revelador: "Ensinar menos para aprender mais".

@prender: A que se deve esse problema e como resolvê-lo?

Celso Napolitano: A solução passa necessariamente pela melhoria das condições de trabalho e de salário, mas também pelo respeito ao ofício do professor. A escola é um ambiente de aprendizagem formal, com trabalho desenvolvido por profissionais, o que a diferencia de outros espaços também educativos. Resgatar esse papel da educação e dos professores poderá estimular a criação de uma nova geração de educadores e melhorará a qualidade de ensino.

Alex Sanghikian - Da Tempestade Comunicação

 
Fonte: Portal Aprender
 
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